Product Backlog, planejamento contínuo e a analogia do horizonte

Imagine esse cenário: você está na rua, observando a cidade à sua frente. Construções, carros, pessoas e outros se distribuem desde você até o horizonte distante. Para descrever o que está vendo, que nível de detalhes você pode utilizar nessa descrição? Agora imagine o seu próximo projeto de desenvolvimento de software. Ao planejá-lo, desde seu início até, digamos, daqui a seis meses, que nível de detalhes você pode utilizar nesse plano?

A Analogia do Horizonte

Na cidade, ao olhar para o que está mais próximo de você, é possível descrever o que vê com um excelente nível de detalhes. Mas, à medida que olha para mais longe, os detalhes que pode utilizar nessa descrição vão gradualmente diminuindo. Se você então tentar descrever o que está mais longe com um alto nível de detalhes, ao caminhar em direção ao horizonte, verá que sua descrição não corresponde inteiramente à realidade. Na verdade, para quanto mais distante você estiver olhando, mais incorreta estará sua descrição se ela for detalhada.

Um planejamento tradicional geralmente busca descrever em detalhes o que será feito durante todo o projeto ou, ao menos, todo o trabalho até a próxima entrega, por exemplo. É muito comum ver esses planos descritos em gráficos de Gantt, que mostram tarefas pequeninas e alocação de “recursos” no tempo. Essa prática pode ser comparada à de se descrever detalhadamente todo o caminho, desde o que está mais próximo de você até o que está lá longe, na  linha do horizonte, portanto com muito mais detalhes do que é possível. O resultado dessa prática é um plano com baixíssima chance de acerto. E para que serve um plano assim?

Em um planejamento Ágil, utilizamos apenas o nível de detalhes que podemos “enxergar”. Para planejarmos um trabalho a ser realizado até o próximo dia, por exemplo, podemos utilizar um nível de detalhes bastante alto. Isso é, cada pequena tarefa a ser realizada. Para as próximas duas semanas – um ciclo de desenvolvimento, por exemplo – podemos utilizar um nível de detalhes ainda razoavelmente alto, porém menor do que para apenas um dia. Ao  planejarmos uma entrega que acontecerá daqui a dois meses ou mesmo o ano inteiro de projeto, a quantidade de detalhes diminui quanto mais longe olhamos no tempo, de forma que pouquíssimos detalhes podem ser utilizados para planejarmos o que está mais distante.

A lista de necessidades de negócios do Scrum, chamada de Product Backlog, reflete esse planejamento Ágil. O alto do Product Backlog possui itens com uma granularidade mais fina, ou seja, itens menores e que representam mais detalhes. Ao olharmos mais abaixo no Product Backlog, vemos que os itens vão ficando cada vez maiores e com menos detalhes. À medida que o projeto caminha no tempo, os itens do Product Backlog devem ser refinados continuamente com cada vez mais detalhes, refletindo apenas aquilo que conseguimos “enxergar” em cada momento.

Autor(es)

Rafael Sabbagh
Rafael Sabbagh
Rafael Sabbagh, co-fundador da Knowledge21 e membro do Board de Diretores da Scrum Alliance entre 2015 e 2017, é Certified Scrum Trainer (CST) pela Scrum Alliance e também Accredited Kanban Trainer (AKT) pela Kanban Univesity. Atuando como Executivo, possui uma vasta experiência em Transformação Digital e Gestão de Produtos. Ao longo da sua carreira, já treinou milhares de Scrum Masters, Product Owners e Membros de Time em mais de 15 países na Europa, América e Ásia.

Comentários

2 Comentários

  1. […] ajudar neste assunto utilizamos a metáfora do Horizonte para guiar o trabalho do […]

  2. […] não ter um backlog bem estruturado, com as histórias no topo sendo fatias finas, conforme a visão do horizonte para o backlog. Na pré-seleção do PO pode acontecer que uma das histórias tenha um esforço […]

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